Intermodalidade: a (tão desejada) transferência modal exige alternativas competitivas
A transição para uma maior utilização da ferrovia e das vias navegáveis no transporte de mercadorias não dependerá apenas de metas ambientais, medidas regulatórias ou do aumento dos custos associados ao transporte rodoviário. Na visão de Hermano Sousa, managing director da ESTE Shipping, o verdadeiro desafio está em tornar as alternativas competitivas em termos de custo, fiabilidade e flexibilidade.
Esta foi uma das principais mensagens partilhadas na 1.ª Conferência Ibérica da Intermodalidade, onde apresentou dados que evidenciam a forte predominância do transporte rodoviário de mercadorias. Em 2023, a estrada representava 78% do transporte terrestre de mercadorias, medido em toneladas-quilómetro, na União Europeia, uma proporção que ascendia a 86% em Portugal e a 96% em Espanha.
Na perspetiva de Hermano Sousa, esta realidade explica-se, em grande medida, pelos critérios que orientam as decisões dos carregadores. Num mercado marcado pela incerteza e pela contratação de transportes a curto prazo, o custo, a fiabilidade e a flexibilidade continuam a ser determinantes, permitindo ao transporte rodoviário manter vantagens competitivas mesmo em corredores onde a ferrovia poderia ser a alternativa.
Para inverter esta tendência, o managing director da ESTE Shipping considera necessário reforçar a interoperabilidade e a capacidade ferroviária, melhorar a fiabilidade dos serviços e desenvolver uma rede mais densa de terminais, reduzindo os custos das operações de primeiro e último quilómetro. Nas vias navegáveis interiores, destaca a necessidade de maior capacidade de adaptação a fenómenos hidrológicos extremos.
O transporte rodoviário enfrenta, por sua vez, desafios próprios, nomeadamente a escassez de motoristas e o envelhecimento da força de trabalho. Neste contexto, Hermano Sousa defende uma utilização mais estratégica dos diferentes modos, reservando à estrada um papel particularmente relevante nos serviços de curta distância, nas operações urgentes e nas ligações de primeira e última milha.
A política ambiental tem um papel importante nesta transformação, mas a sequência das medidas é decisiva. Na sua análise, introduzir custos adicionais associados às emissões antes de existirem alternativas competitivas pode penalizar operações sem soluções modais viáveis e incentivar a transferência de determinadas atividades para fora da União Europeia.
Para o especialista, a mensagem é clara: a intermodalidade só poderá afirmar-se como motor de competitividade e sustentabilidade quando as alternativas disponíveis responderem, de forma efetiva, às necessidades das cadeias de abastecimento. O desafio passa por desenvolver um sistema de transportes integrado, eficiente e resiliente, conciliando os objetivos ambientais com as exigências da atividade económica.