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Dia do Transitário: ANTRAM, AICEP, Grupo Sousa e Corredor Atlântico analisam a 'redefinição logística'

30 de outubro 2026

«Da Escala à Competitividade: Como a Logística Está a Redesenhar os Negócios»: o debate que marcou o Dia do Transitário 2026 e que contou com a moderação da jornalista Ana Guedes Rodrigues.
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A competitividade das cadeias logísticas não se constrói apenas à escala de cada empresa. Exige capacidade para cooperar, aproveitar recursos, articular diferentes modos de transporte e assegurar que as infraestruturas acompanham as necessidades de uma economia cada vez mais internacionalizada.

Foi este o ponto de partida para a mesa-redonda «Da Escala à Competitividade: Como a Logística Está a Redesenhar os Negócios», que reuniu Duarte Rodrigues, administrador e COO do Grupo Sousa, Isabel Quintas, diretora de Internacionalização da AICEP, Ema Leitão, presidente da ANTRAM, e José António Ruiz, comissário do Governo espanhol para o Corredor Atlântico, numa conversa moderada pela jornalista Ana Guedes Rodrigues.

 

Cooperação e o poder da especialização operacional
 

Um dos exemplos surgiu pela voz de Duarte Rodrigues, ao ilustrar como a cooperação pode coexistir com a concorrência. O responsável do Grupo Sousa partilhou o caso de um grande armador que, apesar de concorrer diretamente com o seu grupo numa determinada ligação marítima, decidiu retirar o próprio navio e adquirir espaço no serviço do concorrente. Os contentores passaram, assim, a viajar a bordo do mesmo navio.

Uma decisão que demonstra como a partilha de capacidade, a otimização dos recursos e a identificação de interesses comuns podem gerar eficiência, sem eliminar a concorrência entre operadores, explicou Duarte Rodrigues durante o debate. Uma lógica que José António Ruiz aproximou do modelo dos voos em código partilhado, defendendo que também no setor logístico existe margem para aprofundar formas de colaboração.

Mas ganhar escala não significa necessariamente competir pelos maiores volumes. Num mercado marítimo cada vez mais concentrado, Duarte Rodrigues destacou a importância dos segmentos especializados, onde o conhecimento das necessidades dos clientes e a proximidade operacional permitem construir propostas de valor diferenciadas. «O nosso core são nichos», afirmou, apontando para um posicionamento que privilegia a especialização e a capacidade de resposta, em vez da competição direta pelos grandes fluxos globais.
 

«O principal desafio são as pessoas»
 

A eficiência, contudo, não depende apenas da dimensão ou da capacidade instalada. Depende também da forma como os recursos existentes são utilizados. Foi neste contexto que Ema Leitão colocou as pessoas no centro dos desafios do transporte rodoviário. «O nosso principal desafio hoje são as pessoas», sublinhou a presidente da ANTRAM, alertando para a escassez de profissionais e para o impacto que os tempos de espera nas operações de carga e descarga têm na produtividade do setor. Cada hora de imobilização de um veículo representa capacidade de transporte perdida e um motorista impedido de assegurar outras operações.

A melhoria da articulação entre operadores, a adequação dos horários e a partilha de informação assumem, por isso, uma importância crescente. A mesma lógica sustenta a complementaridade entre estrada e ferrovia: mais do que modos concorrentes, são componentes de uma cadeia que precisa de funcionar de forma integrada. O transporte rodoviário assegura ligações essenciais aos restantes modos e continua a desempenhar um papel determinante na construção de soluções intermodais.

Também a inteligência artificial (tão em voga) e a digitalização surgiram como instrumentos com potencial para transformar esta articulação. A possibilidade de antecipar necessidades, coordenar recursos e reduzir tarefas administrativas abre novas oportunidades de eficiência. Ainda assim, a tecnologia não substitui as condições humanas e materiais indispensáveis ao funcionamento da cadeia logística: profissionais, infraestruturas e capacidade operacional continuam a ser determinantes.
 

Da capacidade de transportar à de chegar ao mercado
 

A perspetiva da internacionalização trouxe outra dimensão ao debate. Para Isabel Quintas, a competitividade das empresas exportadoras está hoje indissociavelmente ligada à capacidade de assegurar a entrega dos seus produtos. Um produto de qualidade e com mercado não é suficiente se a cadeia logística não conseguir garantir a sua distribuição - tal é um facto incontornável, assegurou taxativamente.

«Já não se consegue falar de um produto sem falar de entrega. É impensável», afirmou a diretora de Internacionalização da AICEP, lembrando que a estratégia de entrada num mercado externo deve contemplar não apenas o transporte até ao destino, mas também a capacidade de distribuição dentro desse mercado. «A questão não é só levar o produto para o mercado, é distribuir o produto no mercado».

Este desafio torna-se mais relevante para as PME, cujos volumes nem sempre permitem aceder individualmente às soluções de transporte mais competitivas. A agregação de cargas, a partilha de informação e a identificação de destinos comuns abrem novas possibilidades, permitindo construir respostas logísticas mais acessíveis. Uma necessidade que acompanha a própria transformação das expectativas dos consumidores: num mercado onde a rapidez e a previsibilidade são cada vez mais valorizadas, os atrasos podem comprometer não apenas uma entrega, mas a confiança na marca e no fornecedor.

A capacidade de chegar aos mercados depende, porém, de uma dimensão que ultrapassa a esfera das empresas: as infraestruturas e a articulação entre países. Foi aqui que José António Ruiz chamou a atenção para os constrangimentos que continuam a afetar o desenvolvimento do Corredor Atlântico, particularmente os atrasos nas ligações ferroviárias francesas. Portugal e Espanha podem avançar na modernização das suas redes e na concretização de projetos de ligação, mas a continuidade das ligações ao restante continente exige compromissos e decisões que envolvem outros Estados-membros.

«Temos de conseguir que esta União Europeia seja uma união de verdade», defendeu, sublinhando que a interoperabilidade ferroviária não se esgota na questão da bitola. Eletrificação, sinalização e compatibilidade técnica são igualmente fundamentais para garantir que as ligações transfronteiriças funcionam como verdadeiros corredores de transporte. A competitividade de uma infraestrutura nacional depende, em larga medida, da sua capacidade de ligação às redes europeias.
 

Competitividade também se constrói nas regras do jogo
 

A dimensão regulatória e ambiental encerrou outro eixo importante do debate. A transição energética e as políticas de descarbonização foram analisadas à luz dos seus efeitos sobre a competitividade internacional dos operadores. Duarte Rodrigues alertou para as distorções que podem resultar da aplicação regional de custos a uma atividade marítima de natureza global, nomeadamente quando estas medidas criam vantagens competitivas para portos situados fora da União Europeia.

Também Ema Leitão defendeu que a transição energética deve ser acompanhada por soluções técnica, económica e operacionalmente viáveis, capazes de permitir ao setor adaptar-se sem comprometer a sua sustentabilidade empresarial. A questão central passa por assegurar que os custos associados à transformação não recaem de forma desproporcionada sobre os operadores, acabando por se refletir no preço final dos produtos e na competitividade das empresas.

Ao longo da conversa, tornou-se claro que a escala, por si só, não constitui uma resposta suficiente aos desafios da Logística. A competitividade constrói-se através da cooperação entre operadores, da valorização dos recursos humanos, da integração dos diferentes modos de transporte, da capacidade de acompanhar as necessidades dos mercados e de uma visão europeia coerente para as infraestruturas e regulação.

Perspetivas distintas, mas complementares, convergiram numa mesma ideia: o futuro da logística dependerá cada vez menos da capacidade de cada interveniente atuar isoladamente e cada vez mais da sua capacidade para integrar, articular e construir soluções em conjunto.

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