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Da Gronelândia à fragmentação do Comércio Global: que futuro logístico?

13 Jan
Remota mas estratégica, a Gronelândia esconde potencialidades que Donald Trump já deixou claro querer explorar. Estaremos perante um Comércio Global fragmentado e novas relações de poder?
Depois da polémica intervenção na Venezuela, Donald Trump não parece querer abrandar na sua visão 'expansionista' para o futuro dos EUA: a Gronelândia está na mira do líder da Casa Branca e a intenção de intervir diretamente no território é real, como o próprio assegurou. Que implicações poderá ter, para o Comércio Global, uma nova ação militar e geopolítica dos EUA em tão estratégico território? E, da perspetiva logística, que futuro e desafios devemos esperar, à medida que um novo paradigma diplomático emerge?

O 'fator Gronelândia': por que razão é estrategicamente relevante?

Remota mas altamente estratégica, a Gronelândia esconde potencialidades que Donald Trump já deixou claro querer explorar. Do ponto de vista geopolítico e logístico, ela controla acessos entre o Atlântico Norte, o Ártico e rotas transpolares emergentes, sendo, além disso, um reservatório crítico de recursos valiosos: como minerais estratégicos para a transição energética. O território, aparentemente periféico, é central na rivalidade entre EUA e China, dada a sua posição geográfica e sua a proximidade a rotas de mísseis balísticos internacionais.

Impactos no Comércio Global: o Ártico como novo eixo logístico

Vejamos: o degelo do Ártico está a tornar viáveis, ainda que de forma sazonal, algumas rotas que poderão reconfigurar o panorama logístico global;  assim, um controlo reforçado dos EUA sobre a Gronelândia significaria uma maior influência americana sobre rotas alternativas ao Canal do Suez e ao Panamá e uma potencial redução de tempos de trânsito Ásia-Europa e da dependência de chokepoints vulneráveis (como Suez, Bab el-Mandeb, Ormuz). Para o Comércio Global, tal resultaria em menos linearidade e maior fragmentação de rotas marítimas.

Relações de poder: do multilateralismo ao friend-shoring

Vamos então perspetivar uma ação de tomada de controlo da Gronelândia por parte dos EUA: além da pressão direta sobre Dinamarca, UE e NATO e da natural aceleração do comércio global por blocos, teriamos um quadro mundial mais orientado para o friend & nearshoring, com maior regionalização das cadeias de abastecimento, potencial redução da eficiência e das margens competitivas, tomado pela 'politização' simbólica das relações e menos pela livre concorrência e gestão de interdependências comerciais.

Impactos diretos na Logística e na Atividade Transitária

Centremos agora a objetiva nos efeitos a nível operacional: «O risco operacional aumentaria, devido a volatilidade de rotas, aumento de prémios de seguro, cláusulas de força maior mais frequentes e maior complexidade documental (sanções, controlo dual-use)», comentou António Nabo Martins, instado a debruçar-se sobre o tema para a newsletter da APAT. O presidente executivo da APAT alertou: «A Logística pode, assim, perder a sua desejável 'neutralidade' e o Transitário pode, um dia, acabar a ser quase um «gestor de risco geopolítico também».

O Ártico como 'chokepoint invisível' e a janela de oportunidade lusa

Pleno de trunfos já discutidos, o Ártico traz, contudo, incidências negativas: possui infraestruturas frágeis, um clima extremo e uma forte dependência tecnológica elevada, o que quer dizer que poderá altamente pródigo em atrasos, desvios, custos acrescidos e falhas de serviço. Para os transitários portugueses, este cenário poderia abrir janelas de oportunidade para oferecer 'hubs alternativos' no encurtamento das cadeias transatlânticas, com os portos nacionais a poderem vislumbrar novas estratégias de valorização. 

Foto: Free-Images.com | Pixabay
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