A Logística não colapsa com choques pontuais ou contextos disruptivos, conseguindo até mostrar, aí, a sua resiliência. O problema surge quando não consegue projetar uma ideia estável de futuro.
Cada vez mais o mundo atual é caracterizado por uma disrupção contínua dos parâmetros que, década após década, cristalizaram uma estável ordem global e uma arquitectura sólida de relações comerciais, diplomáticas e geopolíticas. Outrora previsível, a realidade dos dias de hoje tornou-se volátil e de difícil projeção: plena de incerteza estrutural, esta dinâmica força a Logística e uma abordagem totalmente inovadora, assente, não na gestão dos riscos tradicionais, mas sim da compreensão das estruturas que fundamentam tal volatilidade.
Transformação constante: que 'novo normal' aí vem?
Na Logística sempre existiu risco, seja ele meteorológico, operacional, financeiro ou comercial. Contudo, a incerteza estrutural é diferente, surgindo surge quando as regras do jogo deixam de ser estáveis, os pressupostos de longo prazo deixam de ser fiáveis e o risco deixa de ser excepção para passar a ser permanente. A Logística não colapsa com choques pontuais ou contextos disruptivos, conseguindo até mostrar, aí, a sua resiliência global. O problema surge quando não consegue projetar o futuro. Em 2026, essa é uma tarefa cada vez mais árdua.
Ao conflito Rússia-Ucrânica e ao escalar da tensão na Faixa de Gaza, junta-se a controversa intervenção dos EUA em solo venezuelano e a ameaça de uma ação ainda mais polémica na Gronelândia: ambos atos cuja implicação geopolítica é inegável e pode fazer tombar as peças de um dominó já de si precário. O uso do comércio como arma política, a militarização de rotas, a aplicação de sanções económicas e o crescente nacionalismo económico são cada vez mais realidades que destabilizam o panorama do Comércio Internacional.
Trump tem sido o acelerador visível de uma tendência mais profunda, pautado pela competição sistémica entre blocos e a disputa por energia, minerais críticos, tecnologia e controlo de infraestruturas logísticas. Um novo paradigma emerge: o Comércio, tal como o conhecíamos, deixa, progressivamente, de ser neutro; a Logística, de ser invisível; e a eficiência, de ser o único critério. O sistema logístico moderno foi desenhado com base em pressupostos que estão a ruir - como poderá o Transitário ser o guia de um novo rumo para o setor?
Transitário já não é só o 'arquitecto do transporte'
Se a Logística vive de previsibilidade, planeamento e escala, a incerteza estrutural dos nossos dias é fator nada menos que corrosivo; o mundo atual, principalmente pós-2020, é dominado por rotas cada vez mais condicionadas por geopolítica, sanções como instrumento normal, múltiplos regimes regulatórios, cadeias fragmentadas e redundantes e custos mais elevados e voláteis. E, neste 'novo normal', o Transitário deixa de ser o arquitecto do transporte para passar a ser, por excelência, o gestor da complexidade sistémica.
O Transitário passa, assim, a avaliar o risco geopolítico e a gerir a exposição a potenciais sanções, a gerir o compliance comercial e aduaneiro avançado e a ser um fator construtivo da resiliência logística. Muito para além do preço, do timing e da estratégia logística: o Transitário passa assim a ser um ator que define realidades comerciais moldando-se à constante imprevisibilidade do quadro geopolítico, antes estável e agora fragmentado e incerto. Operar sob esta incerteza força a alterar práticas e a redefinir a estratégias de médio e longo prazo.
Eficiência vs resiliência: uma inversão do paradigma?
Num mundo de incerteza estrutural, a resiliência ascende ao topo das prioridades, por ser o quesito mais procurado. O sistema logístico global não colapsa, antes reorganiza-se, podendo, contudo, tornar-se mais fragmentado, mais dispendioso e politizado. Neste desafio, um dos maiores de sempre para os transitários e operadores logísticos, o caminho para o equilíbrio possível poderá passar por ver e entender além da lógica operacional: pensar a Logística como infraestrutura estratégica e participar ativamente na redefinição das cadeias de abastecimento.
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