De canais obstruídos a estreitos encerrados, de acidentes inusitados a conflitos militares planeados, nos últimos cinco anos o Shipping mundial tem-se deparado com quase tudo. E, tanto a montante como a jusante, toda a cadeia logística é arrastada para uma tempestade que, invariavelmente, se torna global. De uma ponta à outro do espectro logístico e comercial, as ondas de choque todos afetam, sem esquecer, claro, o consumidor: o espectador final deste enredo de sucessivos tumultos e consequências inescapáveis. Se em 2021, o Canal do Suez forçou a uma temporária redefinição do tráfego marítimo, a guerra no Irão, tudo menos acidental, parece prever alterações mais perenes.
Do Suez a Ormuz: da crise operacional à tensão omnipresente
Duas falências de chokepoints geoestratégicos para o Comércio Internacional, com causas totalmente diferentes e consequências igualmente díspares: do acidente do Suez, em 2021, ao planeamento de um conflito militar que já está a redesenhar o quadro geopolítico global e a impactar fortemente o ano de 2026, sem fim à vista. O fecho do Estreito de Ormuz foi consequência direta do ataque militar gizado pela administração de Donald Trump: um resultado mais que expectável, que, semanas volvidas, se está a revelar um autêntico teste de resiliência a toda a arquitetura do sistema logístico e comercial. Bem diferente do stress test que foi o acidente no Suez, há cinco anos atrás.
Se em 2021, o bloqueio do Canal do Suez - que durou cerca de seis dias - criou um problema logístico que se propagou durante vários meses (tais foram os backlogs de navios e os efeitos dominó nas escalas, horários, na coordenação com os portos e na disponibilidade de contentores), assim forçando o sistema global a um teste de stress pontual, em 2026, esse mesmo sistema está a braços com uma autêntica maratona de múltiplos desafios que, por agora, está longe de ter data para terminar. Se Suez 2021 foi uma disrupção temporária que colocou à prova a capacidade de resposta do setor, Ormuz 2026 é, sem dúvida, uma crise sistémica cujos limites será o tempo a definir.
O bloqueio do Suez, acidental e localizado no tempo, foi um stress test operacional ao sistema sem alterar estruturalmente a arquitetura do Shipping. Já o caso do Estreito de Ormuz insere-se numa lógica distinta: não a de uma disrupção pontual, mas a de um regime prolongado de risco geopolítico, onde a volatilidade e a reconfiguração de rotas, seguros e fluxos energéticos passam a ser variáveis permanentes da equação logística global. No Suez, a recuperação do sistema era previsível após a remoção do bloqueio; em Ormuz, o sistema está perante um desafio de adaptação contínua, em que não existe um ponto claro de resolução, mas sim múltiplos equilíbrios instáveis ao longo do tempo.
O impacto na operação dos Transitários
A tensão EUA-Irão e o estalar do conflito colocam à atividade transitária um cenário totalmente diferente: se em 2021 o Transitário resolveu um problema, em 2026 o Transitário é forçado a gerir um problema que não desaparece. Emerge, agora sem quaisquer margens para dúvidas, o seu papel de gestor do risco geopolítico, obrigado que agora está a lidar com ténues equilíbrios sucessivos de um limbo internacional que requer constante atenção, estratégica e planeamento, sem fim à vista e tensões crescentes ao seu redor. Se em 2021 ainda vingou o modelo clássico de resolução, em 2026 impera já um modelo assente na resiliência, redundância, flexibilidade contratual e visibilidade em tempo real.
O Transitário como gestor do risco geopolítico e tradutor dessa estratégia em decisões operacionais: este modelo não se instalou, num estalar de dedos, com o arranque do conflito militar entre EUA e o Irão. Foi ganhando preponderância - e urgência - com os sucessivos eventos disruptivos que, desde a pandemia, foram tendo lugar no seio do Comércio Internacional e da Logística Global. Passo a passo, os Transitários foram entendendo os sinais e modelando as suas abordagens operacionais para se erguerem mais resilientes, flexíveis e preditivos. Contudo, o contexto de Ormuz consolida, decisivamente, esta nova filosofia de operação. Estaremos perante a confirmação total de um novo paradigma?
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